Emily Lima, a primeira mulher na CBF




Por Roberta Nina e Cinthia Cotait
(@robertanina e @cici_cotait)



Ex-jogadora de futebol e atual treinadora da seleção feminina Sub-15 e Sub-17 do Brasil, Emily Lima, de apenas 33 anos, acaba de entrar para a história do futebol ao se tornar a primeira mulher a ascender a esse posto, no Brasil. A própria Emily admite que não esperava alcançar tal cargo, o que não exime os louros de sua conquista.

Emily respira futebol desde garota, quando disputava peladas com os primos (a maioria homens), no sítio de seu avô. “Nasci para o futebol”, autodefine-se ela, que atuava como volante.

Aos 13 anos, Emily passou a se dedicar à carreira de jogadora profissional de futebol. Começou no Saad Sport Clube, onde permaneceu até 1997. Com a fusão desse time com o São Paulo, defendeu o Tricolor até 2000. “Por mais que falem das Sereias da Vila, do time do Santos, estrutura igual a que o São Paulo proporcionava para as meninas não existiu ainda no Brasil”, diz. “Os funcionários e as atletas eram todos registrados e utilizávamos a mesma estrutura da equipe masculina.”

A carreira de Emily foi evoluindo e a jogadora atuou em outras equipes do Brasil, como Teresópolis (Rio de Janeiro) e Veranópolis (Rio Grande do Sul) e também em times internacionais da Espanha e da Itália. Mais: Após se naturalizar portuguesa, teve a oportunidade de defender a Seleção daquele país entre 2003 e 2008 em torneios e amistosos. A carreira da atleta, porém, não foi cercada apenas de glórias. Pelo contrário! Além de atuar em um esporte pouco divulgado no Brasil e sofrer as mazelas desta profissão (falta de apoio, infraestrutura, salário, patrocínio), Emily enfrentou duas cirurgias de joelho. A última delas, em 2009, fez com que a então volante abandonasse a profissão no meio da temporada italiana, quando defendia o Napoli.

Com o fim da carreira, após quase 16 anos atuando dentro das quatro linhas, Emily se preparou para atuar como comandante de uma equipe de futebol. Por meio de cursos e de orientações com atletas do ramo, a ex-jogadora especializou-se de olho em uma carreira na área de gestão esportiva. Mas seu irmão, jornalista esportivo, foi quem deu outro rumo para ela.

Foi a Portuguesa de Desportos, em São Paulo, quem abriu as portas para que Emily pudesse atuar como supervisora e auxiliar técnica. O Juventus, da Mooca, veio em seguida (2011 / 2012). Com o ótimo trabalho realizado, veio o reconhecimento e o convite da Confederação Brasileira de Futebol. “Não esperava o convite da CBF; fiquei surpresa! Foi muito legal, mas o mais bacana foi o reconhecimento das pessoas com o trabalho que eu fazia no Juventus. Por isso sempre falo para as minhas atletas que devemos estar sempre 100% porque as pessoas estão olhando, vendo o nosso trabalho e a nossa seriedade”.


Futebol feminino no Brasil 

O brasileiro tem paixão por futebol, mas esse sentimento se resume à modalidade masculina. Não se trata de profissionalização, apenas. A pouca visibilidade é o principal motivo pelo desinteresse da população, segundo a técnica. “Para melhorar o futebol feminino, antes de profissionalizá-lo, é importante fazer um campeonato organizado e com a participação efetiva da televisão. Com isso, os patrocinadores investiriam nos clubes (bancando uniformes, atletas e comissão técnica)”.


No momento, com o apoio da CBF, Emily tem viajado o Brasil em busca de jogadoras para atuar pela seleção. Rio de Janeiro, Manaus e Rio Grande do Sul já estão sendo explorados pela comissão da seleção. A tarefa não é nada fácil. Enquanto no eixo Rio-São Paulo a modalidade consegue manter suas jogadoras e equipe, em outros estados a situação é bem crítica. “Nosso principal desafio não é ter um salário alto, porque aqui e no Rio, as meninas ganham bem. O que precisamos é de reconhecimento nacional e não apenas regional. O respeito à modalidade está acima de tudo! É triste você ir para lugares como Manaus, Alagoas, e ver que muitas meninas jogam por um prato de comida ou em troca de moradia nos alojamentos”, afirma a treinadora. É claro que, apesar desse quadro, Emily vê a evolução do futebol feminino em comparação aquele praticado na época em que jogava. “Não tínhamos ônibus para viajar, campo de treinamento, refeições. Hoje é 100% melhor”, completa.

Emily é otimista e acredita que é possível encontrar meninas capacitadas para o futebol. “Podemos encontrar boas jogadoras como a Formiga, Catia Cilene, Cici, Érica, Cristiane... Não iremos encontrar outra Marta porque ela é única, é espetacular, diferenciada. E pelo que eu escuto das atletas, ela é muito competitiva, contagia o grupo e assume posição de líder”.

Emily na CBF Muito mais do que treinar uma categoria de seleção, Emily tem o papel de formar jogadoras para o time principal. “Comandando a sub-15, também vou estar servindo a sub-17. Haverá um trabalho integrado entre as categorias para servir a seleção principal futuramente. O trabalho será feito para que elas treinem de forma integrada”. A CBF tem planos para se adiantar e preparar a categoria sub-15 para quando a FIFA oficializar a categoria.

Apaixonada por tática e fã de Felipão e José Mourinho, a treinadora conta que se transforma, ao comandar a sua equipe. “A Emily fora do campo é bem diferente da Emily treinadora. Eu me transformo! Busco trabalhar igual com todas para não ter ciúmes. Sou bastante dura com as meninas, sou exigente e cobro 100% delas porque também sou cobrada 100%”. Apesar de admirar Felipão, Emily afirma não fazer a linha dura do treinador pentacampeão. Será?

Quando perguntada sobre o treinamento do masculino e do feminino, a treinadora garante que não existe diferença. O que muda, segundo ela, é a carga dos exercícios. Mulher, além de ser mais frágil que o homem (mas nem tanto!), conta com as alterações dos hormônios por conta de seu ciclo menstrual. Percebendo a mudança do desempenho das garotas, Emily desenvolveu em parceria com uma bióloga, um treinamento que avaliava a performance de cada atleta durante todo o ciclo menstrual. “Desenvolvi este trabalho no Juventus e deu super certo. O preparador físico tinha uma relação com o ciclo menstrual de cada atleta, então nosso treinamento servia para avaliar o desempenho delas em cada uma das fases do ciclo. Com o resultado, nós direcionávamos o trabalho especifico para cada menina”, explica Emily, que pretende aplicar este conceito na seleção.

A tática também é aliada da treinadora na hora de passar as orientações para a equipe. “Sou adepta do Tactical Pad (programa) e com ele faço a chamada Escolinha da Emily, onde mostro a movimentação de cada atleta e coloco isso em prática no campo. Já apliquei o 3-5-2 e o 4-3-3 com as meninas da seleção e o resultado foi bastante satisfatório”, explica.

Por ter atuado fora do Brasil por muitos anos, a treinadora nos conta que, assim como no masculino, o jogo feminino europeu também é bem diferente do nosso. “Levei um certo tempo para me adaptar ao estilo de jogo, mas consegui. Na Itália eu sofri um pouco por causa do método de treinamento ser bem ultrapassado”, conta.

Assim como os homens, acreditem, mulher também reclama de concentração. Emily conta que por parte das mulheres, a queixa acontece porque as atletas não são acostumadas desde a base a se concentrar, como acontece com o masculino. “Muitas delas se queixam porque são casadas, têm filhos , uma vida regrada. E passar por isso aos 25 anos é complicado, é bem diferente dos meninos, que, desde os 15 anos, já vivenciam esse momento”.

Mesmo com a instabilidade da profissão, a treinadora aconselha as mulheres a trabalharem com o esporte e acrescenta que uma de suas missões é auxiliar ex-atletas a trabalhar neste meio. “O que eu puder fazer por elas, farei. É importante contar com a experiência dessas ex-atletas para melhorar o desempenho da modalidade. Nossa profissão é muito instável. Hoje estamos treinando uma equipe, mas amanhã ninguém tem certeza. Tem que gostar muito do que faz e arriscar. Eu fiz isso”.

Como treinadora, o desafio de Emily era chegar à seleção brasileira. Agora, os objetivos são outros: os títulos de uma Sul-americana e de um Mundial estão na lista, sem esquecer da Olimpíada, em 2016. “Aposto no futebol feminino como um favorito na Olimpíada. Estamos com um planejamento bom e se continuarmos com esse trabalho integrado, terei muita responsabilidade nisso e o técnico da sub-20 também. Estamos preparando meninas para 2016. Eu espero resultado positivo já em 2015, no Mundial. Se conquistarmos este título inédito, já vão nos olhar com outros olhos. E com isso, aumenta ainda mais a responsabilidade na Olimpíada de 2016”, analisa a treinadora.

E se recebesse uma proposta para comandar um time masculino? “Se receber convite de equipes masculinas, posso pensar. Sei que existe uma única mulher treinando homens atualmente. Não é o meu objetivo no momento, mas avaliaria a possibilidade. As mulheres têm que começar a quebrar barreiras!”.


Nome completo: Emily Alves da Cunha Lima
Data e local de nascimento: 29/9/80, São Paulo, 32 anos
Partida inesquecível: Quando jogou pela Seleção Portuguesa pela primeira vez contra a Dinamarca.
Jogador que mais gosta da atualidade: O meia Paulinho do Corinthians.
Lugar mais lindo que visitou: Cancun
Uma saudade: Meu pai
Uma alegria: O futebol
Uma tristeza: A falta do pai
A maior conquista da vida: Chegar na CBF
Onde espera estar daqui a 5 anos: Espero ter títulos mundiais e estar na seleção principal
Mudaria algo na trajetória: Não. Deu tudo certo
Maior defeito: Sou chata
Maior qualidade: Sempre pensar no próximo
Jogador que gostaria de ter visto jogar: Pelé
Gol mais bonito que viu: O centésimo gol do Rogério Ceni, em cima do Corinthians. 
Quais são os jogadores importantes que levaria para a Copa de 2014: Júlio César, pela experiência, Paulinho pela fase e títulos que ganhou no Corinthians e Neymar pelo brilho e qualidade que tem, mas precisa aprender a jogar em equipe. Kaká não está numa fase muito boa, mas sou apaixonada por ele também.

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